Em cada sala de aula, escritório, corredor e espaços de convivência, há uma mulher na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que inspira. No Dia Internacional da Mulher, comemorado no domingo (8), a instituição traz faces de mulheres que se orgulham do que são e do que fazem. A data tem um significado importante para a instituição, já que a maioria do corpo universitário é formado por elas: São 994 professoras e agentes universitárias, de um total de 1766.
Entre as alunas da graduação, presencial e a distância, elas são 5230, do total de 8687 de estudantes. Somente nos Hospitais Universitários, estima-se que dos cerca de 3 mil funcionários, 70% seja do gênero feminino. Em uma instituição com paridade de gênero, 53% dos cargos de confiança são ocupados por mulheres.
Dentre as tantas mulheres que circulam pela Universidade, a UEPG conta as histórias e mostra o trabalho de Cristiane, Ramily e Eunice, respectivamente agente universitária, aluna e professora.
Cristiane
ra 10 de julho de 2024, quando ela andou pelos corredores da Universidade pela primeira vez – semana de recesso institucional, uma quarta-feira, data escolhida com estratégia para iniciar uma nova vida. Foi o momento em que Cristiane Galvão Fidelis se apresentou ao mundo, o dia do (re)nascimento, que ocorreu dentro da UEPG.
Cris é uma agente universitária que inovou os sistemas da instituição. Mas faz quase dois anos que ela é reconhecida para além da atuação profissional. Agora, a marca da servidora é também o sorriso, o brilho no olhar e a alegria de poder, finalmente, ser quem verdadeiramente é.
Escolher uma quarta-feira para se apresentar como Cristiane teve um motivo, segundo ela. “Eu lembro muito desse dia. Quis um meio de semana, pois só faltariam mais dois dias para chegar à sexta-feira”, conta. Ela caminhou rapidamente até a sua sala no bloco da Reitoria, naquela manhã. “Cheguei bem antes do horário, passei pelos corredores, entrei na minha sala e fiz uma postagem no Instagram: ‘Dia 01!'”. Aos poucos, os colegas foram chegando para conhecer uma pessoa que sempre esteve ali, mas que se revelou ao mundo naquele dia.
Cristiane começou a trajetória na UEPG como aluna da graduação em Processamento de Dados, em 1988. Desde aquele ano, ela nunca mais saiu de casa: em 1991, entrou como Programadora e depois subiu para Analista de Informática, no antigo Centro de Processamento de Dados (CPD) – hoje Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI). “Desde o início, me entregaram a responsabilidade dos sistemas acadêmicos da Universidade, porque eu sempre fui aficionada pela área de banco de dados, então meus projetos aqui foram relacionados a isso”.
Foi na paixão pela profissão que Cristiane desenvolveu quatro sistemas de controle acadêmico, como a implantação do diário de classe eletrônico e o acadêmico on-line. “Escolhi essa área, porque falavam que era a profissão do futuro, e no fim das contas acabei me apaixonando pela minha profissão”. E foi o que garantiu o futuro profissional da curitibana que desde criança mora em Ponta Grossa. Em 2018, surgiu um novo desafio, ser pró-reitora de recursos humanos – hoje Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progesp). Logo depois, tornou-se chefe da Coordenadoria de Controle Interno, um cargo que exige grande responsabilidade.
“Um dos meus principais papéis atualmente é intermediar todas as requisições que o Tribunal de Contas e a Controladoria Geral do Estado fazem para a UEPG. Eu recebo essas solicitações e busco as informações junto aos órgãos competentes. Adicionalmente, eu sou também responsável pela Ouvidoria, pela transparência e pelo compliance“. Com a função, Cris acompanha todo o trabalho da Universidade. “É desafiador, mas é algo que me satisfaz, pois eu sempre convivi com essas responsabilidades em níveis diferentes”.
Em 2021, com a carreira em alta, Cris viu a necessidade ajeitar a vida pessoal. “Em março daquele ano, eu entendi que precisava dar um rumo na minha vida e comecei o meu processo de hormonização [procedimento médico de afirmação de gênero que utiliza hormônios]. Era algo que eu estava disposta a enfrentar, e aí comecei também a preparar minha chegada [na sociedade]”. Foram três anos até que chegasse o momento. “Em janeiro de 2024, conversando com a minha endocrinologista, eu disse: ‘É, tem que ser esse ano'”.
Pelo cargo de alta confiança que ocupa, Cris decidiu que uma das primeiras pessoas a saberem de sua nova vida seria o reitor, professor Miguel Sanches Neto. Foi um dia marcante, segundo ela. “Lembro que cheguei toda apavorada, pensando como é que ia conversar com o reitor, mas eu tinha que enfrentar, independentemente se ele me tirasse do cargo ou não. Comecei a conversa ‘olha, eu sou uma mulher trans’, e despejei toda minha história pra ele. E depois de uma altura do campeonato, eu falei que se ele entendesse que deveria me afastar, tudo bem por mim”.
A resposta do reitor não poderia ser mais feliz: “ele só disse ‘eu pensei que era algum problema na Ouvidoria, se é só isso, tudo bem, continue o trabalho'”, Cris recorda, gargalhando. “Foi uma das coisas mais significativas que aconteceram comigo, ver que as pessoas do meu trabalho estavam me aceitando”. A plenitude daquele momento deu lugar ao pensamento “por que não fiz isso antes?”, que logo migrou para o sentimento “que bom que eu fiz agora, sem deixar pra amanhã”, descreve.
Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Ponta Grossa, Cris atua como docente. Por lá, a recepção também foi respeitosa, o que mostra o caráter acolhedor das universidades, segundo ela. “No primeiro semestre, era o professor Fidelis, já no segundo, chegou a professora Cris Fidelis, foi assim que eu me apresentei, e foi muito interessante, todos me respeitaram muito, mesmo os alunos que haviam reprovado no início do ano na minha matéria”, sorri.
Dentre tantos momentos que a fazem feliz, como todos os citados acima neste texto, Cris acrescenta os colegas de trabalho. “Você ter um bom relacionamento com os colegas é algo espetacular. Em especial, depois da minha transição, em que eu tinha medo de como eles iriam me tratar e me receber, vejo eles me dando feedbacks fantásticos, me falando como eu tô bonita, muito mais legal, muito mais feliz”.
A importância de ser quem é também passa pelo fato das pessoas conhecerem a sua verdadeira personalidade, segundo Cristiane. “Eu até tentava convencer as pessoas, de que quando eu me apresentasse como quem verdadeiramente sou, eu seria a mesma pessoa. Mas tudo muda, é uma sensação indescritível, eu me sinto uma pessoa melhor, numa versão muito melhor, e isso me alegra muito. Me entusiasma muito viver, ser eu e conhecer, experienciar coisas novas”, celebra.
Ser mulher é um desafio? Para Cris, sim. “Nós, mulheres, temos vários desafios nas vivências, a gente sente diferente, a gente vê o mundo de uma forma diferente, temos um desafio de comparação com outras pessoas e com o trabalho dos homens, uma série de cobranças adicionais que o universo masculino não tem”, cita. Mas a felicidade de se olhar no espelho, de ser chamada pelo gênero correto, de poder comprar roupas que sempre gostou e de ser vista como quem sempre foi é incomparável. “A partir do momento em que eu comecei a botar o pé no mundo, como a Cris, as pessoas me reconheceram, me encontraram e me abraçaram, isso tudo revolucionou a minha vida”. Cris ainda fez questão de falar sobre mulheres trans:
"Ser uma mulher transgênero nos dias atuais ainda é um desafio gigante, pois o mundo tenta impor e limitar quem nós podemos ser. Temos que enfrentar o apagamento, o preconceito e reinvidicar um espaço que é nosso por direito. Hoje na UEPG, sinto a responsabilidade de honrar todas que vieram antes de mim e que resistem e lutam pelo respeito, como alunas, professoras, agentes universitárias e pessoas do mundo. O respeito precisa deixar de ser um pedido, mas uma realidade. Neste Dia da Mulher, que nós mulheres sejamos celebradas em todas as formas, mas também em sua pluralidade. Enfim, amo ser uma das mulheres Agentes Universitárias na UEPG, uma instituição que acolhe, abraça e respeita as mulheres e também a diversidade. Viva a UEPG, viva o Dia da Mulher hoje e todos os dias."
Ao olhar para trás, para a Cris que sonhava com o próprio nome e identidade desde os oito anos de idade, a mulher de 55 anos tem certeza: a Cris sempre existiu. “Essa é a grande verdade, a Cris nunca deixou de existir, a Cris sempre esteve lá e hoje a Cris vive no mundo externo, e ela está muito feliz!”.
Ramily
Ela caminha com passos firmes e um sorriso que, mesmo com os lábios cerrados, transparece no olhar. Assim é Ramily Gonçalves dos Santos. Dizem que com 18 anos, as pessoas acabam de sair da adolescência para a juventude, mas os sonhos da caloura de Medicina são de gente grande.
Vinda da Terra Indígena de Mangueirinha, Aldeia Campina, no sudoeste do Paraná, ela conta que escolheu o curso porque o sonho é ajudar pessoas. “À medida que eu fui crescendo, eu acabei percebendo que muitas pessoas da minha comunidade não tinham acesso à uma saúde realmente de qualidade. E aí eu senti esse desejo de ajudar essas pessoas e tantas outras ao redor do Brasil que não têm acesso a isso”, descreve. Ramily concede a entrevista para esta reportagem no Campus Uvaranas, local que passará os próximos anos imersa nos estudos.
Estudar sempre foi uma atividade prazerosa para ela: “eu já me preparava para para diversos vestibulares desde o começo do Ensino Médio, porque sempre tive muito incentivo com relação aos estudos vindo da parte da minha mãe”. Filha de professora, ela viu de perto como a educação muda vidas. “A infância da minha mãe foi muito difícil. Eles [a família da mãe] não tinham boas condições financeiras, eram em muitos filhos, e ela acabou passando por muitas coisas difíceis ao longo do tempo. E ela também viu nas minhas tias, as irmãs mais velhas dela, a falta de autonomia e independência sobre a própria vida”. A independência para a mãe de Ramily veio por meio dos estudos, experiência passada para a filha. “Foi ela quem me incentivou e incentiva muito a estudar”.
Ramily entrou na UEPG por meio do Vestibular dos Povos Indígenas no Paraná, que aconteceu em 2025. Foi a primeira prova que realizou, com a certeza na mente e no coração de que escolheria a UEPG como novo lar. “Eu já sabia que queria estudar aqui, porque eu tenho pessoas da minha família e da minha aldeia que já estudaram aqui e que me falaram que é uma universidade muito boa, e eu acabei me encantando com isso, sabe?”. Foi assim que a caloura fez as malas e embarcou na nova aventura em Ponta Grossa.
Como está no início do ano letivo, alguns desafios se apresentaram, como a nova realidade em morar numa cidade maior. Mas o apoio institucional e dos colegas nesses primeiros dias já se fizeram presentes. “Eu gostei bastante da estrutura do Campus, consegui me relacionar bem com os meus colegas, eu achei que todos foram bastante acolhedores, e tive muito suporte da Cuia [Comissão Universidade para o Índio], então tá tudo bem tranquilo”. O mais importante e o que fica no fim das contas, segundo ela, é aprender:
"Buscar conhecimento, pra mim, é uma questão de força, de resistência. Porque ao longo dos anos as mulheres, não só as indígenas, como também não-indígenas, sempre foram muito oprimidas, sempre foram muito privadas dos seus estudos. Isso é uma coisa que eu vejo que na minha aldeia é muito frequente. Muitas meninas, mulheres, jovens que têm a minha idade, quando terminam o Ensino Médio, acabam não tendo a sua verdadeira independência. E eu sinto que ao fazer isso, ao me posicionar dessa forma, eu posso acabar inspirando outras meninas da minha comunidade a estudarem, a se formarem, a irem atrás da sua própria autonomia de conseguirem fazer as coisas por conta própria."
O desejo de ajudar as pessoas fez com que Ramily quisesse, inicialmente, ser professora, assim como a mãe. Mas o tempo passou: “percebi que eu poderia ser mais útil para as pessoas dentro da Medicina, por isso eu gostaria de transitar por outras aldeias indígenas, porque existem diversas etnias espalhadas pelo Brasil, então quero passar por esses lugares para ajudar as pessoas lá também”, finaliza.
Eunice
Ela estava ainda na graduação, quando se apaixonou pelo tema que a acompanharia até hoje. A professora Eunice de Morais é umas referências da instituição se o tema é ficção histórica – um tipo de literatura que relaciona a ficção com fatos, locais e acontecimentos históricos. “Eu sempre fui uma pesquisadora de ficção histórica, minha dissertação e tese foram relacionadas a isso”, descreve. Mas foi há poucos anos que ela embarcou em um novo caminho, com foco em personagens femininas e escritoras mulheres que se dedicam a este gênero narrativo. “Observamos um aumento significativo de mulheres nesta área atualmente, e isso nos fez olhar para como a sociedade tratou, no passado, a figura da mulher, as funções femininas, as complexidades das escritoras e como isso foi se transformando a partir dos movimentos feministas”.
Mesmo com o aumento progressivo de escritoras, desde o século XIX, o número ainda é pequeno, em relação à produção masculina. “A minha pesquisa não tinha como fugir disso, especialmente na sociedade em que estamos vivendo, com explosões de casos de feminicídio e violência contra a mulher. E a literatura vem como uma forma de diálogo com essa questão social”, acrescenta.
E quando se olha para a literatura de ficção histórica feita por mulheres, existe um diferencial discursivo, de linguagem e de perspectiva histórica, segundo Eunice. “Quando as escritoras olham o passado, elas escrevem pensando em como a mulher vivia naquela sociedade, buscando elementos pequenos, porque não temos muito material histórico que fale sobre a figura feminina. As escritoras vão amarrando pequenos fatos para entender as circunstâncias, que muitas vezes eram misóginas e machistas, pensando numa sociedade que tinha um posicionamento patriarcal”. Para a professora, a escrita traz a mulher para o centro da narrativa, “quando na maioria das vezes ela aparece como um sujeito secundário, e a literatura das escritoras traz essa mulher como sujeito primário, como a protagonista das histórias”. E qual o elemento destaque dessa literatura feminina? Para Eunice, é a memória.
“Esse memorialismo é um aspecto importantíssimo na construção da história da mulher, porque a gente não tem muitos registros físicos. Então, o que acontece? Eu conto a minha história a partir do que as minhas avós contavam sobre as suas mães. A gente constrói essa linha, de certa forma ancestral, a partir da oralidade, das narrativas familiares, e a memória é essencial para construir esse discurso. A questão da memória, ela atravessa essas literaturas”, destaca.
Uma escritora deste estilo, que chama a atenção da pesquisadora, é uma mulher negra brasileira, que viveu na mesma época que Machado de Assis, considerada a primeira romancista negra da América Latina. “Maria Firmina dos Reis era uma professora e escritora, que escreveu algumas narrativas esparsas e o livro ‘A Úrsula’. Mas nós não temos uma fotografia dela, apenas pinturas a partir de descrições dela. Ela é considerada um marco para a nossa literatura, mas em registros da época ela sequer é mencionada”. Uma das proposições da professora é se Maria Firmina dos Reis seria o ponto de partida para construção de uma história da literatura feminina no Brasil. “Porque ela constrói a narrativa dela, ela abre esse espaço para identidade feminina e também para identidade feminina, negra e escravizada”.
Em Ponta Grossa, ainda existe outro marco feminino no campo da ficção histórica: Emilia Dantas, uma romancista que escrevia poemas e artigos opinativos sobre o voto feminino e a educação. “Ela tem um marco importante para a cidade, e temos estudos publicados sobre ela, então é interessante trazer esse nome que é próximo de nós”. É por essas e outras tantas escritoras de ficção histórica que a docente há mais de 20 de anos e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem faz questão de mostrar, mais e mais, a literatura feminina aos seus alunos e alunas:
"É importante mostrar para os alunos essa presença das mulheres na literatura, porque durante muito tempo a gente deu aula de literatura lendo só os autores clássicos, que em geral são homens. E isso vai deixando de lado esse olhar sobre a escrita da mulher, a gente vai se perguntando por que tão poucas mulheres aparecem na história da literatura brasileira. Temos uma gama de autoras, mulheres, que foram esquecidas, e é justo que a gente, como mulher, traga para os alunos também esse outro olhar sobre a literatura. A literatura feminina foi durante muito tempo estigmatizada. Pensava-se muito que mulher não tem o que falar, que só fala bobagem. Mas nós temos muito o que dizer, nós temos uma experiência de vida, uma visão de mundo que se diferencia muito da visão masculina e daquilo que se espera de nós."
Para continuar o tema, nesta semana, a professora Eunice, em parceria com a docente do PPGEL Keli Cristina Pacheco lançaram o e-book “Cenas da ficção e da arte: memórias, mulheres e resistência”. A obra é resultado da colaboração entre pesquisadores das disciplinas de Tópicos de Estudos Literários e Literatura e Outras Artes. O estudo propõe uma investigação aprofundada sobre a autoria feminina e a configuração de personagens mulheres em diversos gêneros narrativos e produções artísticas contemporâneas. (Com assessoria. Foto: Jéssica Nadal)